“A lei tarda, tarda e tarda para falhar.”
Um Estado marcado por escândalos de corrupção. Um Estado que se diz laico, mas de laico nada tem. Um Estado que não é Estado, é interesse bancário. É paraíso de impunidade para seus “governantes”. Um Estado que, na verdade, nem merece ser escrito com letra maiúscula. Chamemos de estado, assim. Porque esse é o motivo do desespero repressivo que presenciamos nesses últimos dias. Estar reduzido às mesmas letras minúsculas em que o estado coloca seu povo.
Agora com o estado reduzido ao mesmo tamanho com que olha “seus governados” vamos analisar a recente situação do “paraíso” brasileiro. O POVO (prefiro assim), mais uma vez, gritou. E provou que ainda há voz nas ruas do Brasil. Que não estamos calados. Que nem toda a população brasileira acredita no país da Copa, do carnaval, da festa. Meu país é sim, o mais lindo do mundo, com o POVO mais alegre e uma cultura maravilhosa. Mas a perspectiva geral da situação pede alguns títulos mais apropriados. País do conformismo. Do bundamolismo. Da alienação em massa. Da polícia que serve como máquina repressora e não defensora. Da mídia que fala pelo megafone do governo. Do povo que escuta a mídia e caminha lado a lado com a opressão. Mas falemos do povo depois. Afinal, é sempre bom começar pelos bastidores.
O Brasil é um país carente em diversos aspectos. Carente de saúde, acesso à alimentação e moradia para uma maioria, transformada em minoria desimportante pela tela da TV. Carente de educação, pois o sistema de educação pública, aqui nas terras verde-amarelas, é horroroso. Absolutamente horroroso. Falta estrutura. Falta mão-de-obra. Falta valorização da mão-de-obra corrente. E diante de uma situação de greve geral no setor, o que o governo faz? Demoniza os grevistas e mascara a situação com belos discursos cotistas, estatísticas contestáveis e apoio de uma mídia cada vez mais parcial aos interesses do poder público.
Carente de soluções eficientes para combater a violência afinal,sem educação de qualidade, não há redução alguma na raiz do problema da violência urbana. O “combate” do nosso governo vem através do incentivo à repressão policial e de medidas proibicionistas retrógradas (um salve pro PL7663/2010*, que está cada vez mais próximo da aprovação). É fato já percebido por parte da população e confirmado até pela própria polícia (vou deixar essa surpresinha para o final), visando soluções adotadas em países com menores índices de violência (e maiores índices de educação), que políticas menos repressivas, menos infantis e desvinculadas de atrasos maiores (conservadorismo e pragmatismo religioso de uma, cada vez maior, bancada evangélica) são possíveis e de eficiência comprovada.
Claro que eu diria que de uns tempos pra cá a atenção para a cultura demostrou algum avanço. Algumas políticas interessantes aqui, outras ali. Bolsa isso, Bolsa aquilo, Bolsa pra todos os problemas. Mas as carências gritam mais alto, apesar de o povo não escutar.
Uma deficiência bem interessante é vista no sistema trabalhista. A população envelhece. O governo vê um futuro óbvio de redução drástica na quantidade de mão de obra. O caminho racional? Investir no sistema educacional uma parcela maior do PIB (como os cobrados 10% para o PNE**), em uma valorização da árdua (e, na perspectiva atual, injustamente remunerada) profissão professor (e falo dos professores de todas as esferas), melhorias do ambiente escolar e aumento do acesso da população à esse ambiente. Agindo da maneira mais rápida, no jeitinho “tapa-buraco” - que já é tão conhecido do brasileiro -, o governo aumenta o acesso à educação. Bom? Ótimo, se os aumento do acesso fosse acompanhado de um aumento nos outros investimentos necessários. O que não acontece. Resultado? A mão de obra especializada continuará escassa, principalmente para as futuras demandas esportivas do país. Com a demanda por mão de obra em alta, e um quadro irreversível (com as políticas atuais) de redução na força laboral, o governo dificulta e regula, cada vez mais, o acesso à aposentadoria.
Interessante como os problemas se entrelaçam, não é? Educação, violência urbana e sistema trabalhista. Conectados por suas deficiências e compartilhando de uma semelhança ainda maior: ideias retrógradas aplicadas pelo governo vigente.
E como pode, um país tão carente, aceitar a brilhante (nem tanto) missão de sediar uma Copa do Mundo, seguida de uma Olimpíada? Claro. Todo o discurso de incentivo ao esporte, geração de milhares de empregos, aquecimento da economia é super válido, e trabalha perfeitamente na teoria. Mas o sonho mudou de figura rapidamente. Uma inflação que cresceu silenciosamente, causada pela injeção desregulada de capital no mercado visando subsidiar as obras da Copa. Um governo que prioriza a competição esportiva, que já se provou não tão maravilhosa assim, em detrimento das necessidades gritantes de seu POVO. Um aumento desregulado no preço do transporte público (observado em tempos recentes e enraizado na crescente inflação).
E aí chegamos à “baderna que toma forma nas ruas e no facebook”, e que atrapalha tantos ‘cidadãos’ brasileiros de assistirem sua novela em paz. Atrapalha outros tantos de verem notícias “relevantes” nas redes sociais (afinal, quando o campeonato de futebol é top-trend do twitter, ninguém reclama). E qual o motivo disso tudo?
As manifestações recentes vão muito além de 20 centavos. Vão muito além da problemática do transporte público. São protestos contra a problemática-Brasil. Protestos contra o circo armado pelo interesse bancário e governamental, e protagonizado pelos palhaços inertes que devoram a mídia elitista. E acima disso: protestos contra o conformismo. Protestos de todos aqueles que veem muito mais que sertanejo no ambiente universitário. Protestos daqueles que consomem a cultura e a informação que não nos são empurradas pela goela. Protestos de uma parcela da população brasileira que tem preocupações mais importantes que a ostentação de uma falsa segurança monetária. Protestos de quem pensa.
E te indago. Porque o governo pode pensar pelo POVO e uma parcela do POVO não pode pensar por ela mesma? Porque essas pessoas que vão às ruas são chamadas de vândalos? De loucos? Porque ainda ridicularizam aqueles que lutam? Porque devemos apoiar um evento esportivo que não poderemos assistir de perto, devido ao preço exorbitante dos ingressos (alguns já à venda pela bagatela de 2500 reais. Os mais baratos margeiam as 250 extintas notas verdes)? É realmente mais prazeroso trabalhar por um atraso para o país, por uma falsa imagem de que está tudo bem e depois assistir tudo isso na tela de uma televisão (que será eternamente lembrada pelo peso de suas prestações)?
É realmente melhor assistir a uma covarde onda de repressão ao pensamente livre, e aplaudir de pé o controle da baderna e a manutenção da suposta Ordem estampada em nossa bandeira? Ordem nenhuma, um lema melhor seria: Desordem e Regresso! Não só por parte do governo, mas por uma parcela cada vez menos engajada da população, que não satisfeita com a própria burrice e comodismo, faz questão de se render à manipulação estatal e fazer chacota contra os que se levantam do sofá para lutar por todos.
Repito, TODOS. Quem vai às ruas protestar não protesta de maneira egoísta. Protesta inclusive por aquele que o ridiculariza e não apoia o protesto.
E aí jaz a beleza de ver a Avenida Paulista tomada por pessoas. A beleza de ver que ainda há pensamento próprio. De ver que a coragem que hora tivemos para enfrentar Ditadura e derrubar Collor ainda está presente em alguns: mesmo diante do fato de o governo do estado de são paulo (todo minúsculo também) e prefeitura vestirem a casaca ditatorial e anunciarem que os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus podem ser tratados como ato de terrorismo, passíveis do uso de armas de fogo para controle da manifestação, o movimento não enfraquece.
O POVO ainda pensa. O Brasil ainda sonha. E não há cabeça baixa. E isso é algo realmente muito belo.
Finalizo essa reflexão com as palavras de um policial civil, retiradas do documentário “Vozes da Guerra”. A fala do policial vai além do combate ao tráfico de drogas. Anda sobre esse território tão frágil que vemos ser exposto nos últimos dias: a ineficiência das ações imediatistas do governo brasileiro.
“Mas pra esse menino de doze, treze, catorze anos, pegar numa arma chinesa, o que que falhou, cara? Falhou o esporte, falhou a cultura, falhou o lazer, falhou habitação, falhou assistência social. Falhou a saúde. Falhou a educação. Falhou a família. Falhou religião. Aí mandam a polícia resolver um problema desses, véi. Nós somos incapazes de resolver esse tipo de problema. Eu me considero um INCOMPETENTE para resolver esse tipo de problema.”
Por: Marcus Vinícius Lessa de Lima
*novo projeto de lei que visa modificar a política nacional sobre drogas
**plano nacional da educação